Sistema Estomatognático: Uma Orquestra Funcional

Confira aqui o podcast deste artigo.

1. Introdução: O Sistema Estomatognático como um Todo Integrado

Caro aluno, bem-vindo ao estudo da Oclusão. Antes de mergulharmos nos conceitos de contatos dentários e movimentos mandibulares, é fundamental estabelecermos uma base sólida sobre o palco onde toda essa dinâmica acontece: o Sistema Estomatognático (SE).

O termo "estomatognático" deriva do grego stoma (boca) e gnathos (mandíbula). No entanto, reduzir este sistema à boca e à mandíbula seria um grande equívoco. O Sistema Estomatognático é um complexo e sofisticado conjunto de estruturas anatômicas e fisiológicas que atuam de forma integrada e coordenada para desempenhar funções vitais como a mastigação, a deglutição, a fala, a sucção e a respiração. Ele é a unidade funcional do complexo craniocervicofacial.

Pense no SE como uma orquestra sinfônica. Para que uma sinfonia seja executada com harmonia, cada instrumento (os componentes) deve estar afinado e o maestro (o sistema nervoso central) deve reger os músicos com precisão. Se um único instrumento desafinar ou um músico tocar fora de ritmo, toda a experiência auditiva é comprometida. Da mesma forma, no SE, a desarmonia em um de seus componentes — seja uma disfunção na articulação temporomandibular (ATM), um desequilíbrio muscular, a perda de um dente ou uma inflamação periodontal — pode levar a um colapso funcional, resultando em dor, limitação de movimento e comprometimento das funções orais.

Neste tópico, vamos dissecar os quatro pilares estruturais e funcionais desse sistema:

  1. A Articulação Temporomandibular (ATM): A articulação mais complexa do corpo humano, o eixo de rotação e translação da mandíbula.
  2. A Musculatura: Os motores que geram e controlam os movimentos mandibulares.
  3. Os Dentes: Os elementos ativos que trituram o alimento e definem os contatos que guiam a função.
  4. O Periodonto: O sistema de suporte, sustentação e propriocepção que ancora os dentes e os informa sobre as forças oclusais.

Compreender a anatomia, a fisiologia e a inter-relação desses componentes é o primeiro e mais crucial passo para dominar os princípios da Oclusão e, consequentemente, para diagnosticar, planejar e tratar com segurança e previsibilidade qualquer condição que afete o aparelho mastigatório.


2. A Articulação Temporomandibular (ATM): A Dobradiça da Vida

A Articulação Temporomandibular (ATM) é uma articulação do tipo gínglimo-artrodial, ou seja, combina movimentos de dobra (gínglimo – rotação) com movimentos de deslizamento (artrodial – translação). Trata-se de uma diartrose bilateral, obrigatoriamente funcional em conjunto, sendo as duas articulações indissociáveis. Não existe movimento de uma ATM sem o correspondente e simultâneo movimento da outra.

2.1. Componentes Anatômicos da ATM

Para entender sua função, precisamos conhecer suas estruturas constituintes:

a) Superfícies Ósseas:
A ATM é formada por duas superfícies ósseas que não são congruentes por si só:

  • Côndilo Mandibular: É a porção articular da mandíbula. Possui uma forma elipsoide, com seu eixo maior no sentido lateromedial. A superfície articular do côndilo é revestida por fibrocartilagem, um tecido mais resistente e com maior capacidade de reparação que a cartilagem hialina encontrada na maioria das outras articulações do corpo.
  • Fossa Mandibular (ou Fossa Glenoide): Localizada no osso temporal, é uma concavidade ovalada e profunda, limitada anteriormente pelo tubérculo articular (ou eminência articular). É importante notar que a fossa mandibular não é a principal superfície de contato funcional; a maior parte da carga mastigatória é direcionada para a eminência articular, uma estrutura óssea que desce anteriormente à fossa e por onde o côndilo desliza durante a abertura de boca.

b) Disco Articular:
É o componente mais singular e fundamental para a estabilidade e complexidade da ATM. Trata-se de uma estrutura fibrocartilaginosa, avascular e aneural em sua porção central, que se interpõe entre o côndilo e a fossa/eminência. Sua função é múltipla:

  • Congruência: Torna congruentes as superfícies ósseas incompatíveis, aumentando a área de contato e distribuindo as forças.
  • Absorção de Impacto: Atua como um amortecedor, protegendo as superfícies ósseas durante a mastigação.
  • Estabilidade: Divide a articulação em dois compartimentos funcionais (superior e inferior), permitindo movimentos distintos.

O disco é firmemente fixado medial e lateralmente aos polos do côndilo pelos ligamentos colaterais, dividindo a ATM em:

  • Compartimento Superior: Entre a fossa/eminência e o disco. Permite os movimentos de translação (deslizamento).
  • Compartimento Inferior: Entre o disco e o côndilo. Permite os movimentos de rotação (dobradiça).

c) Cápsula Articular e Líquido Sinovial:
A cápsula articular é um manto de tecido conjuntivo fibroso que envolve toda a articulação, desde o osso temporal até o colo do côndilo, inserindo-se nas bordas do disco. Ela é revestida internamente pela membrana sinovial, que produz o líquido sinovial. Este líquido tem funções vitais: lubrificação, nutrição das estruturas avasculares (disco e cartilagens) e fagocitose de detritos.

d) Ligamentos:
Os ligamentos são estruturas de tecido conjuntivo que têm a função primária de limitar os movimentos mandibulares, protegendo as estruturas articulares. Eles não movem a mandíbula, mas atuam como "freios" de segurança. Os principais são:

  • Ligamento Temporomandibular (Lateral): É o principal ligamento de reforço da cápsula. Limita a rotação e o deslocamento posterior do côndilo.
  • Ligamento Esfenomandibular: Estende-se da espinha do esfenoide até a língula da mandíbula. Limita a abertura excessiva e a protrusão.
  • Ligamento Estilomandibular: Do processo estiloide ao ângulo da mandíbula. Limita a protrusão e a abertura excessiva.

2.2. Biomecânica da ATM: A Dança dos Movimentos

A mandíbula realiza movimentos complexos que são uma combinação de rotação e translação. A compreensão desses movimentos é a base do estudo da Oclusão.

  • Movimento de Rotação: Ocorre no compartimento inferior da ATM. Neste movimento, o côndilo gira sobre o disco articular fixo. É o movimento primário nos primeiros 20 a 25 mm de abertura bucal. É um movimento de dobradiça, cujo eixo passa pelos centros dos côndilos.
  • Movimento de Translação (Deslizamento): Ocorre no compartimento superior. Neste movimento, o conjunto côndilo-disco desliza anteriormente, descendo pela eminência articular. É responsável pelos movimentos de abertura ampla, protrusão (levar a mandíbula para frente) e lateralidade.

Na abertura bucal, a sequência é: inicia-se com a rotação pura (até o primeiro ruído de clique, se houver um deslocamento de disco) e, a partir daí, a translação se soma à rotação. Na protrusão, há translação de ambas as ATMs simultaneamente. Na lateralidade (movimento de trabalho), temos um movimento complexo: no lado para o qual a mandíbula se move (lado de trabalho), o côndilo realiza um movimento de rotação em torno de um eixo vertical; no lado oposto (lado de balanceio), o côndilo realiza um movimento de translação anterior, medial e para baixo.


3. A Musculatura do Sistema Estomatognático: Os Motores da Função

Se a ATM é o eixo, a musculatura é o motor. Os músculos do SE são divididos em três grupos principais: os músculos mastigatórios (primários), os músculos supra-hióideos (acessórios) e os músculos infra-hióideos e cervicais (fixadores). A coordenação harmônica entre esses grupos é essencial para uma função eficiente e indolor.

3.1. Músculos Mastigatórios (Primários)

São os principais responsáveis pelos movimentos de elevação da mandíbula (fechamento) e por movimentos excursivos. São inervados pelo nervo mandibular (V3), um ramo do trigêmeo (V par craniano).

  • Masseter:

    • Origem: Arco zigomático.
    • Inserção: Ângulo e ramo da mandíbula.
    • Função: Principal músculo de elevação da mandíbula. É um dos mais potentes geradores de força de fechamento. Possui uma porção superficial e uma profunda, com fibras que atuam tanto na elevação quanto na protrusão.
  • Temporal:

    • Origem: Linha temporal e fossa temporal.
    • Inserção: Processo coronóide da mandíbula.
    • Função: Elevador da mandíbula, com um papel crucial na retrusão (movimento de levar a mandíbula para trás). Suas fibras posteriores são as principais responsáveis por esse movimento. Também auxilia na lateralidade.
  • Pterigóideo Medial:

    • Origem: Fossa pterigóidea (esfenoide) e tuberosidade maxilar.
    • Inserção: Ângulo medial da mandíbula.
    • Função: Atua em conjunto com o masseter, formando um "sling" (estribo) muscular que suspende a mandíbula. É um forte elevador e auxilia na protrusão.
  • Pterigóideo Lateral:

    • Origem: Asa maior do esfenoide e placa pterigóidea lateral.
    • Inserção: Côndilo mandibular e disco articular.
    • Função: É o músculo mais complexo e frequentemente implicado nas desordens temporomandibulares (DTMs). É o principal protrusor da mandíbula. Durante a abertura de boca, sua contração puxa o côndilo e o disco para baixo e para frente. Na lateralidade, o pterigóideo lateral do lado oposto (de balanceio) se contrai para deslizar o côndilo para frente, medial e para baixo. Importante: sua porção superior insere-se no disco articular e tem papel controverso, acreditando-se que possa estabilizar o disco durante a contração.

3.2. Músculos Supra-hióideos (Acessórios)

Este grupo muscular, localizado acima do osso hióide, atua como antagonista dos músculos elevadores. São os principais responsáveis pela abertura de boca e pela deglutição. São inervados pelo nervo facial (VII par craniano) e pelo nervo hipoglosso (XII par craniano), entre outros.

  • Digástrico (ventre anterior e posterior): Abaixa a mandíbula e eleva o osso hióide.
  • Genio-hióideo: Abaixa a mandíbula e traciona o osso hióide anteriormente.
  • Milohióideo: Forma o assoalho da boca. Abaixa a mandíbula e eleva o osso hióide.
  • Estilo-hióideo: Eleva e traciona posteriormente o osso hióide.

3.3. Músculos Infra-hióideos (Fixadores)

Localizados abaixo do osso hióide, têm a função de fixar o osso hióide, criando um ponto fixo para que os supra-hióideos possam atuar eficientemente na abertura da mandíbula.

3.4. Considerações Funcionais sobre a Musculatura

A mastigação é um ato coordenado pelo sistema nervoso central. Durante o ciclo mastigatório, há uma alternância fásica entre a contração dos elevadores (fechamento) e o relaxamento dos abaixadores, e vice-versa. Em condições de normalidade, os músculos entram em ação de forma suave e simétrica. A palpação muscular é um exame clínico fundamental para detectar pontos gatilho, hipertonicidade e dor referida, que são sinais clássicos de desarmonia oclusal ou estresse.


4. Os Dentes: Os Elementos Ativos da Oclusão

Os dentes são os elementos do sistema que entram em contato direto com o alimento e entre si. Eles são a interface entre a função e a estrutura de suporte. A forma de cada dente, sua posição no arco e a relação de contato com seus antagonistas definem a oclusão.

4.1. Anatomia Dentária Funcional

Cada grupo dentário possui características morfológicas que o tornam apto para uma função específica na trituração do alimento.

  • Incisivos: Sua borda incisal fina e afiada é ideal para o corte. São os dentes guias na protrusão e na lateralidade. A função principal dos incisivos, do ponto de vista oclusal, é a guia anterior.
  • Caninos: Possuem a raiz mais longa e volumosa da boca, conferindo-lhes grande estabilidade. Sua cúspide pontiaguda é o último contato dentário durante o movimento de lateralidade (função de guia canina), protegendo os dentes posteriores de forças excessivas.
  • Pré-molares: Representam a transição entre a função de guia e a função de trituração. Possuem uma ou duas cúspides. Auxiliam na trituração do alimento.
  • Molares: São os dentes de maior superfície oclusal. Suas cúspides e fossas formam um sistema de "pilão e almofariz" responsável pela trituração e moagem final do alimento. Suportam a maior parte da força mastigatória.

4.2. Curvas de Compensação

Para que a mastigação seja eficiente e os contatos sejam harmoniosos, os dentes superiores e inferiores se alinham em curvas específicas:

  • Curva de Spee: É uma curva anteroposterior, observada no plano sagital. É a curvatura que vai do canino até o último molar, passando pelos contatos das cúspides vestibulares dos dentes inferiores. No arco superior, ela é inversa (curva de compensação).
  • Curva de Wilson: É uma curva mediolateral, observada no plano frontal. Refere-se à inclinação axial dos dentes posteriores para a língua (nos inferiores) e para a bochecha (nos superiores), criando um formato de "U" invertido que protege a língua e otimiza a trituração.

4.3. Determinantes da Oclusão

Os dentes não são apenas os elementos passivos de contato; eles, juntamente com a ATM, determinam a dinâmica oclusal. Os fatores que determinam a oclusão são divididos em:

  • Determinantes Anatômicos (Fixos): A morfologia da ATM (ângulo da eminência articular, trajetória do côndilo) e a guia dentária anterior (a face palatina dos incisivos superiores e a borda incisal dos inferiores). Esses são os fatores não-modificáveis ou de difícil modificação.
  • Determinantes Modificáveis: A morfologia das superfícies oclusais dos dentes posteriores (cúspides, fossas, sulcos) e a relação de contato entre eles. Estes são os fatores que podemos alterar por meio de restaurações, próteses ou ortodontia.

5. O Periodonto: O Alicerce do Dente

De nada adianta um dente com morfologia perfeita se ele não estiver firmemente ancorado ao osso alveolar. O periodonto é o conjunto de tecidos que envolve e suporta os dentes. Ele é o elo entre o dente e o osso, e possui funções mecânicas, sensoriais e de defesa.

5.1. Componentes do Periodonto

  • Gengiva: É a porção da mucosa mastigatória que recobre o osso alveolar e circunda a porção cervical dos dentes. Divide-se em gengiva livre (sulcular), gengiva inserida (firmemente aderida ao osso) e gengiva interdental (papila). Sua principal função é formar uma barreira de proteção contra agressões externas.
  • Ligamento Periodontal (LPD): É um tecido conjuntivo especializado, rico em fibras de colágeno (principalmente as fibras de Sharpey, que se inserem no cemento e no osso), que une o cemento radicular ao osso alveolar. Suas funções são:
    • Suporte e Sustentação: Mantém o dente no alvéolo, permitindo uma pequena mobilidade fisiológica.
    • Propriocepção: É o principal órgão sensorial do sistema estomatognático. O LPD é extremamente rico em mecanorreceptores que informam ao sistema nervoso central sobre a direção e a intensidade das forças aplicadas sobre o dente. É através do LPD que "sentimos" se um contato oclusal está prematuro ou se estamos mastigando um grão de areia.
    • Anexial (Formação e Reabsorção): É um tecido dinâmico, com capacidade de remodelação frente às forças aplicadas.
    • Nutrição: Nutre o cemento e o osso alveolar adjacente.
  • Cemento: É um tecido mineralizado que recobre a raiz dentária. Serve como meio de inserção para as fibras do ligamento periodontal.
  • Osso Alveolar: É a porção do osso maxilar e mandibular que forma os alvéolos dentários. É um osso que depende da presença do dente para sua manutenção. Após a perda do dente, o osso alveolar sofre um processo de reabsorção irreversível.

5.2. Fisiologia Periodontal e Forças Oclusais

O periodonto é adaptado para suportar as forças mastigatórias. No entanto, existe um limite de tolerância. Forças excessivas ou mal direcionadas podem levar a:

  • Trauma de Oclusão: Lesão no periodonto resultante de forças oclusais excessivas. Pode ser agudo (um contato prematuro em uma restauração alta) ou crônico (hábitos de bruxismo). O trauma de oclusão pode levar à mobilidade dentária, aumento do espaço do ligamento periodontal (visível em radiografias) e, em casos extremos, perda óssea, especialmente se associado a uma inflamação periodontal pré-existente.

A propriocepção do LPD é o mecanismo de proteção mais importante do sistema. Quando mastigamos, o feedback sensorial do LPD permite que ajustemos a força e a direção dos movimentos mandibulares em milissegundos, protegendo os dentes, o osso e a ATM. Em pacientes que usam próteses totais, a perda desse feedback proprioceptivo é um dos principais fatores que reduzem a eficiência mastigatória.


6. Integração Funcional: A Sinfonia em Ação

Agora que estudamos cada componente isoladamente, é crucial entender como eles se integram. Uma função normal, como a mastigação de um alimento, segue um fluxo preciso:

  1. Início (Abertura): Os músculos supra-hióideos e o pterigóideo lateral contraem-se, tracionando o côndilo e o disco para baixo e para frente (translação), enquanto ocorre a rotação no compartimento inferior. O alimento é levado à boca.
  2. Fechamento e Contato: Os elevadores (masseter, temporal, pterigóideo medial) contraem-se. O primeiro contato dentário ocorre. Neste momento, o LPD dos dentes em contato envia sinais proprioceptivos ao SNC sobre a localização, direção e magnitude da força.
  3. Guia e Trituração: O SNC coordena a contração muscular para deslizar a mandíbula lateralmente. A guia canina (ou a guia em grupo, dependendo do esquema oclusal) orienta o movimento. As cúspides dos dentes posteriores deslizam pelos sulcos e fossas, triturando o alimento. A ATM do lado de trabalho realiza movimentos de rotação, enquanto a do lado de balanceio realiza a translação.
  4. Deglutição: Após a trituração, a língua posiciona o bolo alimentar. Os dentes entram em contato máximo (posição de intercuspidação habitual), estabilizando a mandíbula para que ocorra a deglutição segura. Os músculos supra-hióideos e infra-hióideos atuam para estabilizar o osso hióide e elevar a laringe.
  5. Repouso: Após a deglutição, o sistema retorna ao estado de repouso. Nesta posição, os dentes não estão em contato. Há um espaço livre interoclusal (ou espaço funcional livre) de aproximadamente 2 a 4 mm. A musculatura apresenta um estado mínimo de tonicidade para manter a postura mandibular contra a gravidade. Esse é o estado de equilíbrio fisiológico.

7. Conclusão: Da Anatomia à Clínica

Caro aluno, ao finalizar este módulo, você deve ter compreendido que a Oclusão não é apenas o estudo do contato entre os dentes. É o estudo de um sistema biológico complexo, dinâmico e integrado.

A ATM, com sua morfologia única e seu disco articular, é a articulação que permite a ampla gama de movimentos da mandíbula. A musculatura, com seus grupos de elevadores e abaixadores, é a força motriz que gera e controla esses movimentos. Os dentes, com suas formas e arranjos específicos, são as ferramentas que cortam, trituram e moem o alimento, além de guiarem a mandíbula em uma trajetória funcional. E o periodonto, com seu ligamento periodontal rico em propriocepção, é o sistema que ancora esses dentes e fornece o feedback sensorial essencial para a coordenação neuromuscular de todo o processo.

A falha ou desarmonia em qualquer um desses componentes irá inevitavelmente afetar os demais. Um contato prematuro em um dente (componente dentário) pode levar a um desvio no fechamento mandibular, causando uma contração muscular protetora (componente muscular) que, mantida ao longo do tempo, pode resultar em dor e sobrecarga na ATM (componente articular), além de mobilidade e inflamação periodontal (componente de suporte). Este é o ciclo vicioso das Desordens Temporomandibulares (DTMs) e das desordens oclusais.

Portanto, o diagnóstico em Oclusão exige que o cirurgião-dentista vá além da restauração do dente isolado. É necessário olhar para o paciente como um todo, avaliando a condição das ATMs, a tonicidade e dor muscular, a morfologia e os contatos dentários, e a saúde periodontal. Ao dominar a anatomia e a fisiologia dos componentes do Sistema Estomatognático, você estará construindo o alicerce para uma prática odontológica mais segura, previsível e, acima de tudo, centrada no bem-estar do paciente.

Nos próximos tópicos, aplicaremos este conhecimento para entender os conceitos de oclusão normal, as classificações de Angle, os determinantes dos movimentos mandibulares e, finalmente, como diagnosticar e planejar tratamentos que restaurem a harmonia dessa orquestra funcional.


Referências Bibliográficas Sugeridas

Para aprofundamento dos temas abordados, recomenda-se a leitura dos capítulos iniciais dos seguintes livros:

  1. OKESON, Jeffrey P. Tratamento das Desordens Temporomandibulares e Oclusão. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
  2. DAWSON, Peter E. Oclusão Funcional: Da ATM ao Planejamento do Sorriso. 3. ed. São Paulo: Santos, 2015.
  3. ASH, Major M.; NELSON, Sigurd J. Wheeler: Anatomia, Fisiologia e Oclusão Dentária. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
  4. NORTON, Neil S. Netter: Atlas de Anatomia da Cabeça e do Pescoço. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

Leia mais...

O que é Oclusão e Por que Estudá-la?
Oclusão em Odontologia: sistema estomatognático, RC, MIH, guias oclusais e importância clínica. Texto didático para graduação.
Alinhamento e Oclusão Dental
Estude Alinhamento e Oclusão Dental: curvas de Spee e Wilson, chaves de Angle, guia canino, MIH e classificação das maloclusões.

Glossário

  • Sistema Estomatognático (SE): É a unidade funcional do complexo craniocervicofacial, composta por um conjunto sofisticado de estruturas anatômicas e fisiológicas que atuam de forma coordenada para funções como mastigação, deglutição e fala.
  • Articulação Temporomandibular (ATM): Classificada como uma articulação gínglimo-artrodial, ela permite movimentos de rotação (dobradiça) e translação (deslizamento).
  • Côndilo Mandibular: Porção articular da mandíbula com forma elipsoide, revestida por fibrocartilagem, que possui maior capacidade de reparação que a cartilagem hialina.
  • Fossa Mandibular: Concavidade no osso temporal onde o côndilo se aloja, limitada anteriormente pelo tubérculo articular.
  • Disco Articular: Estrutura fibrocartilaginosa, avascular e aneural que se interpõe entre o côndilo e a fossa, promovendo a congruência das superfícies ósseas e a absorção de impactos.
  • Líquido Sinovial: Fluido produzido pela membrana sinovial que atua na lubrificação, nutrição das estruturas avasculares e na fagocitose de detritos dentro da articulação.
  • Ligamentos: Estruturas de tecido conjuntivo que funcionam como "freios", limitando os movimentos mandibulares para proteger as estruturas articulares.
  • Movimento de Rotação: Movimento de dobradiça que ocorre no compartimento inferior da ATM, sendo o movimento primário nos primeiros 20 a 25 mm de abertura bucal.
  • Movimento de Translação: Deslizamento do conjunto côndilo-disco pela eminência articular, ocorrendo no compartimento superior da ATM e sendo responsável por aberturas amplas e movimentos de protrusão.
  • Músculo Masseter: Potente músculo elevador da mandíbula, originado no arco zigomático e inserido no ângulo e ramo mandibular.
  • Músculo Temporal: Atua na elevação e é o principal responsável pela retrusão (levar para trás) da mandíbula.
  • Músculo Pterigóideo Medial: Trabalha em conjunto com o masseter para formar um estribo muscular que suspende e eleva a mandíbula.
  • Músculo Pterigóideo Lateral: Principal músculo protrusor da mandíbula, essencial para o deslize do côndilo e do disco durante a abertura e movimentos de lateralidade.
  • Músculos Supra-hióideos: Grupo muscular responsável pelo abaixamento da mandíbula e pelo auxílio na deglutição.
  • Músculos Infra-hióideos: Atuam fixando o osso hióide para permitir que os músculos supra-hióideos trabalhem eficientemente na abertura bucal.
  • Incisivos: Dentes com bordas finas para o corte, responsáveis pela guia anterior nos movimentos de protrusão.
  • Caninos: Elementos com raízes longas e volumosas que realizam a função de guia canina, protegendo os dentes posteriores em movimentos laterais.
  • Molares: Dentes com grandes superfícies oclusais que funcionam como "pilão e almofariz" para a trituração final dos alimentos.
  • Curva de Spee: Curvatura anteroposterior no plano sagital que vai do canino ao último molar inferior.
  • Curva de Wilson: Curvatura mediolateral no plano frontal decorrente da inclinação axial dos dentes posteriores.
  • Periodonto: Conjunto de tecidos (gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar) responsável pela ancoragem, suporte e proteção dos dentes.
  • Ligamento Periodontal (LPD): Tecido conjuntivo rico em fibras que une o dente ao osso, permitindo mobilidade fisiológica e fornecendo propriocepção ao sistema.
  • Propriocepção: Mecanismo sensorial, mediado principalmente pelo LPD, que informa o sistema nervoso central sobre a intensidade e direção das forças aplicadas aos dentes.
  • Trauma de Oclusão: Lesão nos tecidos periodontais causada por forças oclusais excessivas ou mal direcionadas.
  • Espaço Livre Interoclusal: Distância de aproximadamente 2 a 4 mm entre os dentes superiores e inferiores quando a mandíbula está em posição de repouso.

Read more

Antonio Carlos Pereira Gomes ME

suporte@toniflix.com.br 

CNPJ 22.103.145/0001-50

WhatsApp/Telegram 16 98166-7878

Toniflix.com.br®