Princípios dos Preparos Cavitários em Dentística: Fundamentos para a Prática Clínica Baseada em Evidências

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1. Introdução: O que são preparos cavitários e por que estudá-los?

Caro aluno, você está ingressando no universo restaurador da Dentística. Antes de qualquer restauração – seja de resina composta, amálgama, cimento de ionômero de vidro ou cerâmica – é necessário remover tecido cariado e/ou defeituoso e dar forma à cavidade para que o material restaurador tenha retenção, resistência e longevidade. Esse conjunto de ações é chamado de preparo cavitário.

Historicamente, os princípios dos preparos foram sistematizados por G.V. Black (1836–1915), o “pai da Odontologia Operatória”. Embora muitos materiais e técnicas tenham mudado, seus conceitos – adaptados e atualizados – continuam sendo a base do raciocínio clínico. Neste tópico, você aprenderá:

  • Os objetivos de um preparo cavitário.
  • Os princípios fundamentais (forma de contorno, forma de resistência, forma de retenção, resistência do esmalte e dentina, prevenção de fraturas, acabamento das margens, remoção de tecido cariado).
  • As diferenças entre preparos para amálgama (tradicional) e para resinas compostas (adesivo).
  • Terminologia anatômica das cavidades (paredes, ângulos, divisões).

Ao final, você será capaz de planejar um preparo cavitário adequado ao diagnóstico e ao material restaurador.


2. Objetivos do preparo cavitário

Todo preparo cavitário deve cumprir cinco metas principais:

  1. Remover toda a lesão de cárie e tecido comprometido (dentina desmineralizada irreversível, esmalte sem suporte).
  2. Proteger o complexo dentino-pulpar – evitar superaquecimento, desidratação ou exposição pulpar desnecessária.
  3. Criar uma geometria que permita:
    • inserção adequada do material restaurador;
    • suporte às forças mastigatórias;
    • vedamento marginal duradouro.
  4. Preservar ao máximo a estrutura dental sadia – princípio da mínima intervenção.
  5. Permitir acabamento e polimento que reproduzam a morfologia dental e evitem acúmulo de biofilme.

Perceba que esses objetivos podem conflitar entre si. Por exemplo: remover toda a cárie pode exigir desgaste excessivo. A solução atual é o preparo seletivo (remoção de cárie apenas em dentina amolecida, deixando dentina escurecida mas firme). Discutiremos isso no tópico 7.


3. Terminologia básica das cavidades

Para descrever um preparo, usamos uma nomenclatura padronizada. Memorize:

Termo Definição
Parede Superfície interna do preparo, nomeada segundo a face do dente ou a direção. Ex.: parede pulpar (fundo da cavidade), parede vestibular, lingual, mesial, distal.
Ângulo diedro Encontro de duas paredes (ex.: ângulo axio-pulpar – encontro da parede axial com a pulpar).
Ângulo triedro Encontro de três paredes (ex.: ângulo mesio-vestíbulo-pulpar).
Ângulo cavossuperficial Encontro entre a parede da cavidade e a superfície externa do dente – é a margem do preparo.
Esmalte sem suporte Esmalte que não tem dentina subjacente saudável; deve ser removido, pois fratura facilmente.

Divisões das cavidades segundo Black (adaptado):

  • Classe I – cicatrículas e fissuras de pré-molares e molares (faces oclusais, vestibulares de molares inferiores, palatinas de molares superiores).
  • Classe II – faces proximais de pré-molares e molares.
  • Classe III – faces proximais de dentes anteriores sem envolvimento do ângulo incisal.
  • Classe IV – faces proximais de dentes anteriores com envolvimento do ângulo incisal.
  • Classe V – terço cervical (faces vestibular ou lingual).
  • Classe VI – pontas de cúspides ou bordos incisais.

Na prática moderna, o formato do preparo é ditado pela extensão da lesão, não mais por uma “caixa” rígida como em Black. Ainda assim, a nomenclatura persiste.


4. Os sete princípios fundamentais de G.V. Black (adaptados)

Black propôs seis passos para o preparo de amálgama. Hoje, com materiais adesivos, alguns foram modificados. Vamos estudar cada um em detalhe, destacando as diferenças entre a abordagem tradicional (amálgama) e a contemporânea (resinas).

4.1. Forma de contorno (ou forma externa)

Definição: É o desenho da margem do preparo na superfície do dente. Deve incluir todas as áreas cariadas, fissuras suspeitas e esmalte sem suporte.

Regra de Black para amálgama: “Extensão para prevenção” – a cavidade deveria se estender até áreas imunes à cárie (ex.: sulcos principais livres de cárie, mas que poderiam desenvolver lesões no futuro). Isso resultava em preparos muito amplos.

Abordagem atual (materiais adesivos):

  • Preserva o máximo de estrutura.
  • A forma de contorno é determinada apenas pela extensão real da lesão e pela necessidade de acesso para remover cárie e inserir o restaurador.
  • Não se faz “extensão para prevenção” – a prevenção é feita com selantes, flúor e controle de biofilme.

Exemplo clínico:

  • Lesão de cárie oclusal pequena em primeiro molar.
  • Preparo para amálgama (anos 1980) – removeria toda a fissura, incluindo sulcos saudáveis.
  • Preparo para resina composta (hoje) – abertura apenas sobre a lesão, usando pontas diamantadas esféricas ou pontas multilaminadas; mantém os sulcos adjacentes intactos.

Consequência: Margens em esmalte sadio, preferencialmente em áreas de fácil acabamento (não em fundo de sulco estreito).

4.2. Forma de resistência

Objetivo: Impedir que a restauração ou o dente remanescente fraturem sob forças mastigatórias (até 600 N em molares).

Para amálgama (material friável, sem adesão):

  • Profundidade mínima de 1,5–2,0 mm no centro da cavidade.
  • Fundo plano (parede pulpar paralela à superfície oclusal).
  • Ângulos internos arredondados (raio de 0,2–0,4 mm) para evitar concentração de tensões.
  • Inclinação das paredes (divergência de 5° a 7° para permitir inserção do amálgama).

Para resina composta (material com adesão e módulo de elasticidade próximo ao da dentina):

  • A forma de resistência é fornecida pela união adesiva ao esmalte e dentina, não pela geometria maciça.
  • Profundidade pode ser menor (0,5–1,0 mm em áreas não oclusais).
  • O preparo deve ter ângulos cavossuperficiais em 90° (ou bisel no esmalte) para melhor adaptação da resina.
  • Fundo pode ser irregular (escultura conservadora), desde que haja espessura mínima de 1,5 mm de resina na área de contato oclusal.

Importante: Em ambos os casos, evite enfraquecer cúspides. Se a distância intercuspídea for reduzida em mais de 1/3 da largura da cúspide, há risco de fratura – considere uma restauração indireta (inlay/onlay) ou cobertura total.

4.3. Forma de retenção

Objetivo: Impedir o deslocamento da restauração (forças de tração, cisalhamento, mastigação).

Para amálgama (sem adesão):

  • Utiliza-se retentores mecânicos:
    • Paredes convergentes para oclusal (ângulo de 90° a 95° entre a parede axial e a pulpar – caixa tradicional).
    • Trincos (sulcos retentivos) em ângulos diedros.
    • Pinos (quando há pouca estrutura remanescente).
  • O fundo do preparo deve ser mais estreito que a abertura – a restauração fica “presa” mecanicamente.

Para resina composta (com adesão):

  • A retenção é essencialmente adesiva:
    • Condicionamento ácido total ou autocondicionante.
    • Aplicação do sistema adesivo (primer + adesivo).
    • A retenção micromecânica ocorre na camada híbrida (dentina) e na formação de tags de resina no esmalte.
  • Não são necessárias cavidades retentivas adicionais – pelo contrário, paredes muito convergentes podem impedir a adaptação da resina.
  • Em cavidades muito rasas (< 0,5 mm) ou em dentina esclerosada, pode-se usar condicionamento seletivo do esmalte e microretenções com ponta diamantada.

Cuidado: A adesão não é eterna. A degradação hidrolítica dos adesivos ocorre em 5–10 anos. Por isso, mesmo com resina, mantenha alguma forma de retenção suplementar em dentes com perda extensa de estrutura (caixas proximais, pinos de fibra de vidro).

4.4. Resistência do esmalte e da dentina remanescentes

O preparo cavitário não pode criar fragilidades.

Esmalte sem suporte dentinário:

  • Se uma parede de esmalte não tiver dentina por trás (ex.: após remoção de cáie subjacente), ela se comporta como uma lâmina de vidro – fratura sob o menor esforço.
  • Regra: Remova todo esmalte sem suporte. Para testar: explore com sonda leve; se o esmalte se move elasticamente (efeito “trampolim”), deve ser removido.

Dentina fragilizada:

  • Dentina cariada amolecida (consistência “queijo” ou “couro”) não oferece suporte.
  • Remova até atingir dentina firme (sonda não penetra facilmente) e úmida (não seca ao ar).
  • Dentina escurecida mas dura pode ser mantida (cárie paralisada).

Ângulos internos:

  • Ângulos vivos (90° agudos) concentram tensões → risco de trincas.
  • Arredonde todos os ângulos diedros e triedros com ponta diamantada de granulação fina ou ponta multilaminada.
  • Exceção: preparo para resina pode manter ângulos agudos desde que o adesivo seja aplicado corretamente – mesmo assim, o arredondamento suave é preferível.

4.5. Prevenção de fraturas das cúspides e da restauração

As forças oclusais geram tensões de tração na base das cúspides. Um preparo cavitário inadequado pode transformar o dente em um “mecanismo de alavanca”.

Fatores de risco:

  • Preparo muito largo (mais de 2/3 da distância intercuspídea).
  • Profundidade excessiva (> 2,5 mm em oclusal de molar).
  • Ângulo cavossuperficial em bisel invertido (prepara o esmalte em chanfro para fora – enfraquece a borda).

Estratégias preventivas:

  1. Redução de cúspides – quando a distância da margem da cavidade até a ponta da cúspide é < 2,0 mm, reduza a cúspide em 1,5–2,0 mm e cubra com resina (técnica de “overlay”).
  2. Selamento imediato da dentina – aplicação de adesivo logo após o preparo, antes de qualquer secagem excessiva. Isso evita microfissuras por estresse de contração de polimerização.
  3. Proteção pulpar indireta – se a dentina remanescente for fina (< 0,5 mm até a polpa), use cimento de hidróxido de cálcio ou MTA (mineral trióxido agregado) sob o adesivo.

4.6. Acabamento das margens (ou forma de conveniência)

Após a remoção da cárie e a definição da geometria básica, fazemos o acabamento das margens – etapa que muitos alunos negligenciam.

Objetivos:

  • Criar uma margem nítida e lisa para que o material restaurador se adapte perfeitamente.
  • Remover irregularidades e esmalte fragilizado.
  • Facilitar a inserção e o polimento.

Técnicas:

  • Para amálgama: as margens devem ser em ângulo reto (90°) com a superfície externa, sem bisel. Usa-se ponta diamantada de granulação média (#2135, #3118) em alta rotação com refrigeração abundante.
  • Para resina composta: as margens podem ser:
    • Retas (90°) – para cavidades pequenas.
    • Biseladas (chanfro de 0,5–1,0 mm com inclinação de 45°) – em bordos incisais ou margens proximais acessíveis. O bisel aumenta a área de adesão e disfarça a linha de união.
    • Bisel em bisel curvo – para cavidades Classe V (cervical).

Evite:

  • Margens em “degrau” (diferença de nível entre esmalte e dentina).
  • Esmalte com microfissuras (use pontas de granulação fina para o acabamento final).

4.7. Remoção do tecido cariado (a “cárie”)

Este princípio foi o que mais mudou. G.V. Black defendia a remoção total da cárie até dentina dura e clinicamente limpa (critério da “dentina eburneada”). Hoje, sabemos que:

  • A cárie avança em duas camadas:
    • Camada superficial: desmineralizada, amolecida, infectada por bactérias (S. mutans, Lactobacillus) – deve ser removida.
    • Camada profunda: desmineralizada, mas com colágeno intacto e poucas bactérias (cárie “afetada”) – pode ser mantida, desde que seja selada por um adesivo ou cimento bioativo.

Protocolo atual (remoção seletiva de cárie):

  1. Remova a cárie amolecida (que se remove com cureta sem força) das paredes e do assoalho, exceto na região mais profunda próxima à polpa.
  2. Deixe uma camada de dentina escurecida, mas firme (consistência de couro) sobre a polpa.
  3. Proteja essa dentina com cimento de hidróxido de cálcio ou cimento de ionômero de vidro modificado por resina (forramento).
  4. Aplique o sistema adesivo sobre todo o preparo.

Evidência: Estudos randomizados mostram que a remoção seletiva reduz o risco de exposição pulpar acidental e não aumenta a falha da restauração em até 5 anos. A selagem marginal é mais importante do que a remoção total de bactérias.

Ferramentas recomendadas:

  • Brocas esféricas de baixa rotação (tamanho 2 a 6) – para remoção de cárie superficial.
  • Curetas de dentina (largas e rombas) – para escavação suave da cárie profunda.
  • Detectores de cárie (corantes como o “Caries Detector” – cora apenas dentina colagenolizada, ajudando na decisão).

5. Diferenças práticas entre preparos para amálgama e para resina composta

Resumo em forma de tabela para fixação:

Característica Amálgama (tradicional) Resina composta (adesiva)
Adesão Nenhuma Sim (micromecânica e química)
Forma de contorno Extensão para prevenção (ampla) Apenas sobre a lesão (conservadora)
Forma de retenção Mecânica (trincos, paredes convergentes) Adesiva (eventual retenção complementar)
Ângulo cavossuperficial 90° (reto) 90° ou bisel
Profundidade mínima 1,5 mm (oclusal) 0,5 mm (não oclusal) / 1,5 mm (oclusal)
Arredondamento ângulos Obrigatório (0,2–0,4 mm) Desejável (mas não crítico)
Remoção de cárie Total (critério Black) Seletiva (mantém dentina firme sobre polpa)
Acabamento das margens Ponta diamantada fina, sem bisel Pontas diamantadas ou multilaminadas, bisel de 0,5–1 mm quando possível
Indicação atual Rara (apenas molares com controle de umidade difícil ou baixo custo) Ampla (todos os dentes, todas as classes)

Na prática clínica atual do Brasil e do mundo, 90% das restaurações diretas são de resina composta. O amálgama ainda é usado no SUS e em situações especiais (cavidades subgengivais profundas, pacientes com xerostomia severa). Domine a técnica adesiva – ela é o futuro.


6. Sequência clínica passo a passo do preparo cavitário (resina composta)

Vamos integrar todos os princípios em uma sequência prática. Considere uma cárie classe II moderada (molar inferior, face mesial).

Passo 1 – Anestesia e isolamento

  • Anestesia regional (bloqueio do nervo alveolar inferior + bucal).
  • Isolamento absoluto com dique de borracha – essencial para adesão.

Passo 2 – Abertura e remoção grosseira da cárie

  • Ponta diamantada esférica #1014 (alta rotação, água abundante).
  • Acesse a lesão por oclusal, mantendo a abertura mínima para visualizar a cárie.
  • Remova cárie amolecida das paredes proximais.

Passo 3 – Definição da forma de resistência e retenção

  • Com ponta tronco-cônica #2135, faça uma caixa proximal com paredes ligeiramente divergentes para oclusal (5°–10°).
  • Profundidade da caixa: 1,5–2,0 mm medida da junção amelocementária.
  • Ângulo axio-pulpar arredondado (ponta multilaminada #3118).
  • Coloque um bisel de 0,5 mm na margem gengival (se acessível) – use ponta #3195.

Passo 4 – Remoção seletiva da cárie profunda

  • Troque para baixa rotação e broca esférica #4 ou cureta de dentina.
  • Remova a cárie das paredes, mantendo uma camada de dentina escurecida mas firme sobre o assoalho pulpar (espessura ≥ 0,5 mm).
  • Teste com sonda exploradora: se penetra sem resistência → remova mais; se resiste → pare.

Passo 5 – Proteção pulpar indireta (se necessário)

  • Se a dentina remanescente estiver muito fina (< 0,5 mm radiograficamente), aplaca uma camada de 0,5–1,0 mm de hidróxido de cálcio (Dycal® ou equivalente).
  • Aguarde 1 minuto (tempo de presa).
  • Sobre o hidróxido, aplique cimento de ionômero de vidro de alta resistência (forramento de 1 mm) para suporte.

Passo 6 – Acabamento final das margens

  • Refine as margens com ponta diamantada de granulação extrafina (#3195F ou #2135F).
  • Remova qualquer esmalte sem suporte.
  • Lave abundantemente.

Passo 7 – Selamento imediato da dentina (opcional, mas recomendado)

  • Aplique um adesivo hidrofílico de 2 passos (ex.: Prime & Bond NT) logo após o preparo, antes do tempo de secagem.
  • Fotopolimerize (10 segundos). Isso reduz a sensibilidade pós-operatória.

Passo 8 – Inserção da resina composta (será detalhada no Módulo 3)

  • Condicionamento ácido (37% ácido fosfórico) – 15 s em esmalte, 10 s em dentina.
  • Aplicação do adesivo (2 camadas).
  • Inserção incremental (até 2 mm por incremento).
  • Fotopolimerização (20–40 s por incremento).
  • Acabamento e polimento final com discos Sof-Lex ou borrachas abrasivas.

Este roteiro aplica todos os princípios: forma de contorno conservadora, resistência via adesão, retenção adesiva, proteção do esmalte/dentina e remoção seletiva de cárie.


7. Erros comuns em preparos cavitários (e como evitá-los)

Com base em anos de docência em Dentística, listo os erros mais frequentes de alunos do 3º semestre:

  1. Superaquecimento da dentina
    • Causa: alta rotação sem refrigeração ou com pressão excessiva.
    • Consequência: necrose pulpar térmica.
    • Solução: use sempre spray de água abundante; faça movimentos intermitentes (toque suave por 1–2 segundos, pausa).
  2. Forma de contorno excessiva
    • Causa: medo de deixar cárie remanescente.
    • Consequência: perda desnecessária de estrutura sadia.
    • Solução: use detectores de cárie e curetas; confie na remoção seletiva.
  3. Ângulos internos vivos
    • Causa: uso de ponta cilíndrica de topo plano sem arredondamento final.
    • Consequência: concentração de tensões → trincas.
    • Solução: finalize sempre com ponta multilaminada ou ponta diamantada de granulação fina em baixa rotação, passando suavemente nos ângulos.
  4. Margens em esmalte sem suporte
    • Causa: não testar a resistência do esmalte após remoção da cárie.
    • Consequência: fratura pós-operatória da margem (infiltração).
    • Solução: explore com sonda leve; se o esmalte ceder (efeito trampolim), remova até encontrar esmalte apoiado em dentina.
  5. Bisel incorreto ou ausente (para resina)
    • Causa: falta de treino em preparos classe III e IV.
    • Consequência: linha de união visível, maior infiltração.
    • Solução: pratique em dentes artificiais o bisel de 0,5–1,0 mm com ponta #3195F, mantendo o bisel em esmalte (não em dentina).
  6. Secagem excessiva da dentina antes do adesivo
    • Causa: “achismo” de que dentina deve estar seca para adesão.
    • Consequência: colapso das fibrilas colágenas → adesão fraca.
    • Solução: após lavar o preparo, seque levemente com jato de ar por 1–2 segundos, mantendo a dentina úmida (brilhante, mas sem poças de água).

8. Preparos especiais e variações contemporâneas

Além dos princípios básicos, algumas situações exigem adaptações:

8.1. Preparo “slot” (fenda) para cáries proximais pequenas

  • Acesso apenas pela proximal, sem envolver a oclusal.
  • Forma de contorno retangular (largura de 1,0–1,5 mm, altura de 2–3 mm).
  • Retenção adesiva exclusiva.
  • Vantagem: preserva a crista marginal. Desvantagem: difícil isolamento.

8.2. Preparo para restauração indireta (inlay/onlay de cerâmica ou resina)

  • Paredes com divergência de 6°–10° (não retentivas).
  • Ângulos internos arredondados (raio ≥ 0,5 mm).
  • Margens em bisel de 45° ou chanfro profundo (1,0 mm) para cerâmica.
  • Não se faz retenção mecânica – a retenção é do cimento resinoso ao dente e à peça.

8.3. Preparo para cimento de ionômero de vidro (CIV) em dentes decíduos

  • Mínimo desgaste – apenas remoção de cárie amolecida.
  • Forma de contorno irregular (o CIV tem adesão química à dentina e esmalte).
  • Não há necessidade de bisel ou retenção adicional.
  • O CIV é biomimético (libera flúor, coeficiente de expansão térmica semelhante ao dente).

8.4. Técnica de “preparo sem contato” para cavidades cervicais (Classe V)

  • Remove-se apenas o tecido cariado.
  • A forma final é uma concha irregular.
  • A retenção é dada pelo sistema adesivo associado a uma matriz de poliéster ou Mylar.
  • Resultado estético excelente, sem necessidade de trincos ou caixas retentivas.

9. Instrumental e pontas diamantadas – o que você precisa saber

Para executar os princípios, domine os instrumentos rotatórios:

Tipo de ponta Código ISO/numero Uso
Esférica #1012, #1014, #1016 Abertura inicial, remoção de cárie
Tronco-cônica #2135, #2135F Forma de contorno, caixas proximais, bisel
Cônica invertida #1171 (raro) Retenções para amálgama (hoje obsoleto)
Chama #3118 Acabamento de ângulos internos, arredondamento
Multilaminada (carbeto de tungstênio) #H375, #H379 Remoção seletiva de cárie (corta dentina cariada e poupa a sadia)
Disco diamantado #9202, #9203 Bisel em faces livres, acabamento cervical

Refrigeração: nunca use pontas diamantadas em alta rotação (> 200.000 rpm) sem água. O calor gerado (> 50°C na dentina por 10 segundos) causa inflamação pulpar irreversível.

Granulação:

  • Grossa (100–120 μm) – desgaste rápido, mas superfície rugosa.
  • Média (50–80 μm) – uso geral (2135).
  • Fina (20–30 μm) – acabamento de margens (2135F).
  • Extra-fina (10–15 μm) – polimento inicial.

10. Controle de qualidade do preparo – checklist para o aluno

Antes de aplicar o adesivo, verifique mentalmente (ou com seu professor) os seguintes itens:

  • [ ] A lesão de cárie foi removida seletivamente (dentina amolecida ausente, dentina firme mantida sobre a polpa)?
  • [ ] Não há esmalte sem suporte dentinário (teste com sonda)?
  • [ ] As margens estão nítidas, sem esmalte fragilizado ou trincas?
  • [ ] Os ângulos diedros e triedros estão arredondados (suave ao toque da sonda)?
  • [ ] A profundidade é adequada ao material (resina: mínimo 0,5 mm em área não oclusal; 1,5 mm em oclusal)?
  • [ ] O bisel, se indicado, foi executado em esmalte (0,5–1,0 mm, 45°)?
  • [ ] A dentina está úmida (brilhante) e não excessivamente seca?
  • [ ] Não há sangramento ou contaminação por saliva (o dique de borracha está íntegro)?
  • [ ] A forma de contorno permite fácil inserção da resina (acesso direto)?
  • [ ] Cúspides adjacentes estão íntegras ou com espessura suficiente (> 2 mm da margem até a ponta)?

Se você respondeu “sim” a todos, o preparo está pronto para a fase adesiva. Parabéns – você aplicou os princípios corretamente.


11. Resumo visual (textual) dos princípios

Para revisão rápida:

  1. Forma de contorno = apenas sobre a lesão (hoje).
  2. Forma de resistência = adesão + espessura mínima de resina.
  3. Forma de retenção = adesiva (primária) + retenção micromecânica.
  4. Resistência do esmalte/dentina = remova esmalte sem suporte, mantenha dentina firme.
  5. Prevenção de fraturas = arredonde ângulos, reduza cúspides quando necessário.
  6. Acabamento das margens = bisel para resina, ângulo reto para amálgama.
  7. Remoção da cárie = seletiva (mantém camada firme sobre a polpa).

Bibliografia

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Glossário

  • Preparo Cavitário: Conjunto de ações mecânicas que removem tecido cariado ou defeituoso e dão forma à cavidade para que o material restaurador possua retenção, resistência e longevidade.
  • Parede: Superfície interna do preparo, nomeada conforme a face do dente ou a direção para a qual está voltada (ex.: parede vestibular, lingual, mesial).
  • Parede Pulpar: Parede de fundo da cavidade, situada transversalmente ao eixo longitudinal do dente.
  • Ângulo Diedro: Linha formada pelo encontro de duas paredes internas da cavidade.
  • Ângulo Triedro: Ponto de encontro formado pela união de três paredes do preparo.
  • Ângulo Cavossuperficial: Margem do preparo resultante do encontro entre as paredes da cavidade e a superfície externa do dente.
  • Esmalte sem suporte: Tecido de esmalte que não possui dentina subjacente saudável, agindo como uma lâmina frágil que deve ser removida para evitar fraturas.
  • Classe I: Cavidades preparadas em regiões de cicatrículas e fissuras (faces oclusais, vestibulares de molares inferiores e palatinas de molares superiores).
  • Classe II: Cavidades que envolvem as faces proximais de dentes posteriores (pré-molares e molares).
  • Classe III: Cavidades nas faces proximais de dentes anteriores (incisivos e caninos) sem envolvimento do ângulo incisal.
  • Classe IV: Cavidades nas faces proximais de dentes anteriores que incluem a destruição ou envolvimento do ângulo incisal.
  • Classe V: Cavidades localizadas no terço cervical das faces vestibular ou lingual/palatina de qualquer dente.
  • Classe VI: Lesões ou cavidades situadas nas pontas de cúspides ou bordos incisais.
  • Forma de Contorno: Desenho das margens externas do preparo na superfície do dente, definido atualmente pela extensão real da lesão.
  • Extensão para Prevenção: Conceito tradicional de Black que ampliava as margens do preparo para áreas imunes à cárie, hoje substituído pela mínima intervenção.
  • Forma de Resistência: Características geométricas do preparo (como fundo plano e ângulos arredondados) que permitem ao dente e à restauração suportarem forças mastigatórias.
  • Forma de Retenção: Conjunto de características (mecânicas ou adesivas) que impedem o deslocamento da restauração sob forças de tração ou mastigação.
  • Bisel: Chanfro realizado na margem de esmalte (inclinação de 45°) para aumentar a área de adesão e melhorar a estética em restaurações de resina composta.
  • Remoção Seletiva de Cárie: Protocolo que remove a dentina infectada (amolecida), mas mantém uma camada de dentina afetada (firme) sobre a polpa para evitar exposições acidentais.
  • Dentina Infectada: Camada superficial da cárie, desmineralizada e rica em bactérias, que não oferece suporte e deve ser removida.
  • Dentina Afetada: Camada profunda de cárie, desmineralizada mas com colágeno intacto e poucas bactérias, passível de ser mantida se selada.
  • Ângulo Axio-pulpar: Ângulo diedro formado pelo encontro da parede axial com a parede pulpar, que deve ser arredondado para evitar tensões.
  • Preparo "Slot" (Fenda): Técnica conservadora para cáries proximais pequenas com acesso apenas pela lateral, sem envolver a face oclusal.
  • Selamento Imediato da Dentina: Aplicação de sistema adesivo logo após o término do preparo para proteger a dentina e reduzir a sensibilidade pós-operatória.

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Relação Cêntrica e Posição de Máxima Intercuspidação: Conceitos, Controvérsias e Relevância Clínica

Confira aqui o podcast deste artigo. 1. Introdução: A Importância de Compreender as Relações Mandibulares Prezado aluno, seja bem-vindo ao coração da Oclusão. Até agora, vocês estudaram a anatomia das articulações temporomandibulares (ATMs), a musculatura mastigatória e a morfologia dental. Neste tópico, começaremos a integrar esses conhecimentos para entender como

By Prof. Dr. Antonio Carlos P. Gomes

Antonio Carlos Pereira Gomes ME

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