Adesivo E&R ou Autocondicionante? Comparando Protocolos de União Dentária
Entenda as diferenças entre os sistemas de condicionamento ácido-enxágue (E&R) e autocondicionantes (SE), determinando qual abordagem é mais adequada para diferentes substratos.
A adesão dentinária representa um pilar fundamental na odontologia restauradora moderna, sendo crucial para garantir a longevidade dos materiais obturados. Atualmente, os clínicos utilizam predominantemente duas abordagens principais de união: o modo Estratégia de Condicione-e-Enxágue (E&R) ou o sistema Autocondicionante Suave (SE). Embora ambos os protocolos busquem criar uma ligação robusta entre o material restaurador e o substrato dentário, eles possuem mecanismos de ação distintos, com vantagens e desvantagens que devem ser consideradas para determinar se um adesivo E&R ou autocondicionante é mais indicado em cada caso clínico.
O Protocolo Condicione-e-Enxágue (E&R): União por Difusão Profunda
O mecanismo de união do sistema E&R baseia-se primariamente no encaixe micromecânico, que ocorre através da difusão profunda tanto na dentina quanto no esmalte. Este protocolo exige o condicionamento ácido com ácido fosfórico, um processo que tem implicações profundas para a estrutura dental.
Vantagens Clínicas do E&R: O principal benefício deste método é sua capacidade de dissolver completamente a camada superficial de "lama dentinária" após um enxágue adequado, o que otimiza a união. Além disso, o E&R é considerado a abordagem mais eficaz e duradoura para o esmalte. Em termos de desempenho clínico a longo prazo, estudos indicam que os adesivos 3-E&R possuem um histórico extenso no mercado, com taxas médias anuais de falha (TFA) reportadas em metanálises que são significativamente menores quando comparados aos sistemas 2-E&R.
Desafios e Limitações do E&R: A desvantagem mais notória é a agressividade do ácido fosfórico, que não apenas remove completamente a Hidroxiapatita (HAp) natural da dentina — essencial como proteção ao colágeno —, mas também dissolve profundamente o tecido em profundidades de 4 a 6 µm. Isso expõe uma rede de colágeno profunda e desprotegida. Consequentemente, as camadas híbridas espessas produzidas por este método são vulneráveis à infiltração marginal, nanoinfiltração e degradação enzimática. A união resultante depende majoritariamente de interações químicas secundárias fracas, como ligações de hidrogênio e forças de van der Waals, o que pode comprometer a durabilidade ideal.
O Protocolo Autocondicionante Suave (SE): Hibridização Rasa e Protegida
Os adesivos autocondicionantes suaves operam por um mecanismo diferente, promovendo uma hibridização mais superficial, estimada em cerca de 1 µm. Este processo é menos agressivo que o E&R, pois resulta apenas na desmineralização parcial da dentina.
Vantagens Clínicas do SE: A principal vantagem deste protocolo reside no fato de que a desmineralização ser parcial. Isso limita a exposição do colágeno, oferecendo uma proteção superior contra a degradação enzimática. Além disso, a camada híbrida resultante é rica em HAp submicrônica, o que cria oportunidades para interações químicas primárias (iônicas). O uso de monômeros funcionais como o 10-MDP é particularmente eficaz neste contexto, pois combina um condicionamento moderado com uma interação química durável e a formação estável do sal 10-MDP-Ca.
Limitações e Considerações do SE: A principal limitação deste sistema é sua capacidade de promover um efeito autocondicionante insuficiente no esmalte. Por essa razão, o esmalte ainda requer uma abordagem que utilize ácido fosfórico (E&R). Outro ponto de atenção é a potencial interferência da camada de esfregaço, sendo este risco mais elevado em adesivos ultra-suaves (pH > 2,5) do que nos suaves (pH ≈ 2).
Síntese Comparativa e Implicação Clínica
Em resumo, enquanto o E&R oferece um intertravamento micromecânico profundo e é superior para a união ao esmalte, ele compromete a integridade natural da dentina devido à agressividade ácida. Por outro lado, o SE preserva melhor as estruturas de colágeno e permite uma interação química mais estável através do uso de monômeros funcionais como o 10-MDP, sendo ideal para um condicionamento menos invasivo.
A escolha entre adesivo E&R ou autocondicionante deve ser guiada pela análise do substrato: o esmalte requer a abordagem E&R; contudo, em relação à dentina, os adesivos SE oferecem uma alternativa de união mais biológica e menos agressiva. É fundamental que o clínico considere não apenas a técnica de condicionamento, mas também a necessidade de fornecer potencial de absorção de choque/tensão através da aplicação de filmes resinosos com espessura adequada em configurações sob alto estresse.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente educativo e informativo, baseado na literatura científica disponível. Ele não substitui, em hipótese alguma, a avaliação clínica individualizada realizada por um cirurgião-dentista.
Referências
MEERBEEK, Bart Van et al. From Buonocore’s Pioneering Acid-Etch Technique to Self-Adhering Restoratives. A Status Perspective of Rapidly Advancing Dental Adhesive Technology. The Journal of Adhesive Dentistry, v. 22, n. 1, p. 7–34, 14 fev. 2020.